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* Game over: como realizar a transição de carreira no esporte?
* Pais na beira da quadra: o quanto atrapalham?

Consultor em Psicologia do Esporte com atletas juvenis e profissionais de diversas modalidades individuais e coletivas visando o acompanhamento de atletas com foco no aumento de performance a partir do manuseio e da potencialização das características psicológicas da modalidade.

Rodolfo Rasmusen



Atualizado: 15 de Outubro de 2018


Game over: como realizar a transição de carreira no esporte?

A carreira esportiva tem início e término mais cedo do que outras carreiras. Enquanto na maioria das profissões tradicionais o auge de carreira pode se dar por volta dos 40/50 anos, raramente temos modalidades em que os atletas chegam a esta idade competindo em alto rendimento.

Salmela (1994) identifica três grandes fases da transição: a iniciação, o desenvolvimento e o término. Assim deve-se ter em vista que a transição de carreira não trata apenas do encerramento (retirement), mas também das diversas etapas da formação e que resultam na transição do atleta, por exemplo, do juvenil para o profissional. Assim, as transições são definidas como fases de mudança no desenvolvimento de carreira que se manifestam por conjuntos de demandas que os atletas têm que enfrentar para continuarem com sucesso no esporte e/ou outras esferas da vida (Alfermann & Stambulova, 2007). O que tem levado ao desenvolvimento de importantes programas no exterior que possam auxiliar os atletas nas diversas fases de transição, como o programa da Federação Britânica de Tênis (PUMMELL & LAVALLEE, 2018)

Nosso artigo centrará na fase final, a qual é mais comum ser associada a transição e ao término de carreira no esporte.

Fato é que a aposentadoria do esporte é um processo complexo, multidimensional e individual (WARRINER, LAVALLEE, 2008). Para Wylleman, Lavallee e Alfermann (1999) o término da carreira esportiva é, na maioria das vezes uma combinação de fatores individuais e influências sociais. Os autores citam que a idade cronológica, a fadiga psicológica, os problemas de relacionamento, novos interesses pessoais, os problemas de contusão ou saúde, o declínio no rendimento são os fatores determinantes.

Tão importante quanto preparar-se financeiramente, o lado psicológico deve e tem de ser trabalhado para enfrentar essa nova fase de vida de maneira estruturada e consciente. Para Schlossberg (apud Alferman et al, 1999, p. 7), a transição de carreira esportiva pode ser definida como “um evento ou não evento que resulta em uma troca nas suposições sobre si mesmo e o mundo, e assim, requer uma mudança correspondente nos seus relacionamentos e comportamentos”, o que corresponde a vivenciar algo que afeta diretamente questões de identidade, da visão que o atleta tem de si e do mundo, solicitando dele uma adaptação do modo de ser e de se relacionar.

Mendelsohn (1999) ressalta que a aposentadoria é um dos momentos mais difíceis na vida de um atleta profissional. É complexo imaginar o convívio com o prefixo “ex” e a perda de status. Ademais ao ex atleta não cabe a possibilidade de procurar um emprego similar nos sites e jornais tradicionais. É natural que nossos caminhos mudem e evoluam, mas é como você se move através deles que faz a diferença.

Capacitação e vivência: como deve ser a transição de atleta para gestor do esporte
No primeiro momento da transição há uma sensação de desconforto, pelo sentimento de que algo está acabando. Surge então as sensações de desamparo e dúvidas quanto ao que fazer e para onde ir aliados a um medo do que está por vir. E por fim, a busca pelo novo começo. Independente qual será o caminho traçado posterior ao término da carreira esportiva será importante o autoconhecimento para alinhar essa nova fase com seus propósitos de vida e como trilhar esse novo caminho.

Agresta, Brandão e Barros Neto analisaram o término da carreira de 79 ex-atletas de basquete e vôlei, e por meio de uma entrevista semi-estruturada observaram que 75,9% encerraram a carreira de forma espontânea, onde, a idade (49,4%) e outros interesses (43%) foram os motivos mais relevantes. Os sentimentos mais latentes em relação ao término de carreira foram à tristeza (50,6%) e a conformidade (36,7%). Samulski et al (2006) concluíram em seu estudo que fatores como a retomada dos estudos e a busca pela formação acadêmica, uma maior dedicação a suas famílias e a inserção em outros grupos sociais fora do contexto esportivo foram fundamentais para uma transição adequada, sem sequelas e que permitiu a esses atletas terminar suas carreiras esportivas e retornar a sociedade em busca de novos desafios pessoais e profissionais.

Mas como se preparar para um processo de transição?

Stambulova (2010) sugere 05 passos para definição da estratégia de planejamento de carreira para atletas em fase de transição . São elas: primeiro passo “Crie uma linha do tempo”, segundo passo “Estruture seu passado”, na terceira etapa “Estruture seu presente”, na quarta etapa, “Estruture seu futuro”, e o quinto passo, “Construa uma ponte entre seu passado, presente e futuro” .

O melhor manejo para atletas e profissionais que se encontram nesta situação é estabelecer novas rotinas diárias. Mediante a investigação do autoconhecimento ser capaz de estruturar um caminho para restabelecer um propósito e um senso de direção capaz de ressignificar o espaço deixado pela pratica e os sentimentos decorrentes dela.

Há desafios, mas também há aspectos positivos e maneiras de os atletas se prepararem para o futuro além do esporte. Se eles sentem que têm uma rede de apoio, há todas as chances de sucesso. Toda transição de carreira pode potencialmente ser uma crise, alívio, ou uma combinação de ambos, dependendo da avaliação dos atletas frente à situação.



Pais na beira da quadra: o quanto atrapalham?

O esporte é um fenômeno que chama a atenção do indivíduo na sociedade contemporânea, e tem na escola e nos clubes seus grandes alicerces de formação. Um personagem fundamental nessa dinâmica são os pais que podem auxiliar ou prejudicar o desenvolvimento.

A realidade do tênis não é diferente, pais ingressam seus filhos e a partir daí a criança sofre toda a influência desse contexto em sua trajetória. A presença dos pais ou familiares tanto nas competições como treinamento do tênis, é de essencial importância. Porém quando os pais interferem tentando exercer outros papéis (técnico, preparador físico, agente, entre outros) -, além do nato, que poderia centrar-se em incentivar, motivar e apontar pontos positivos. Pode se drástico, frustrante para o atleta, e as consequências são inúmeras. Para Hanlon (1994), muitas vezes, os pais projetam seus sonhos em seus filhos, buscando suprir seus interesses próprios, ao invés de ajudar suas crianças a terem experiências alegres, seguras e de grande valor

É claro, que seja ou não o pai um desportista, ele tende a buscar o melhor para seu filho. O problema só se deflagra, quando uma determinada conduta passa despercebida, ou seja, de forma inconsciente, tanto em relação aos pais, quanto em relação às observações dos treinadores. Aspectos como estes, levam os pais a assumirem comportamentos que poderão representar aspectos positivos ou negativos na carreira de seus filhos. Gordillo (1992) ressalta que a influência dos pais, queira ou não, é importantíssima, e não tem porque interferir no trabalho do treinador ou ser negativa. Logo, precisamos compreender melhor essas relações e propor trabalhos de orientação e intervenção junto à família, que possa estabelecer uma relação adequada e propiciar um ambiente ótimo para o desenvolvimento da carreira esportiva do atleta.

Para Rayon (1997), ser no tênis um bom pai é uma tarefa árdua. De repente, os pais se encontram, projetados no meio do mundo do tênis com suas complexidades. O tênis já é um esporte cruel quanto à cobrança psicológica que é exercida sobre o atleta simplesmente pelos fatores casuais do jogo. Na criança e no adolescente essa cobrança pode ser muito maior.

Pais são essenciais para que filhos pratiquem atividade física

Hellstadt (1987) aborda o comportamento e envolvimento dos pais no esporte, através da divisão de grupos, ordenada do sub envolvimento, passando para o envolvimento moderado (zona adequada) até o envolvimento excessivo, ou super envolvimento, e os classifica da seguinte forma:

Pais desinteressados: São os pais que transferem a responsabilidade de cuidar de seus filhos para o treinador. Eles inscrevem as crianças em programas esportivos, sem ao menos saber se o garoto gosta ou não daquela atividade.

Pais mal informados: São aqueles que permitem a prática esportiva de seus filhos a partir de uma primeira conversa, mas depois não se envolvem no processo de treinamento e competições. Nestes casos, não parece haver desinteresse por parte dos pais, mas uma incompreensão sobre a importância do seu papel frente a formação esportiva de seu filho.

Pais excitados: Este grupo refere-se aos pais que tendem a estar sempre colaborando como técnico. Frequentam aos treinamentos, se envolvem no processo de forma adequada. Entretanto, em jogos mais empolgantes, se excitam de forma exacerbada, dirigindo aos árbitros com frases ofensivas e acabam prejudicando todo o ambiente competitivo.

Pais fanáticos: Sem sombra de dúvidas, são os mais problemáticos. Independentemente de suas experiências no esporte, bem ou malsucedidos, eles criam um desejo comum, que seus filhos sejam os verdadeiros heróis no esporte. Nunca estão satisfeitos com o desempenho e sempre têm sugestões para melhoria deste e acabam interferindo em todo processo de preparação, cobram muito de seus filhos a ponto de gerar grandes pressões e falta de prazer pela prática de esportes.

Os pais “técnicos”: São, na maioria das vezes, os maiores responsáveis por atletas que não conseguem confiar no trabalho do treinador ao apontar constantemente os erros, resultando em jovens com autoestima baixa e alto nível de cobrança consigo. São resistentes e contestadores que se apoiam em leituras e vivências esportivas pessoais, fazem cursos, escutam tudo e criam seu próprio método. Para esse tipo de pai, duas notícias. Uma boa e outra ruim. A boa é que existem, sim, muitos casos de pais que administram, gerenciam e treinam seus próprios filhos. A ruim é que isso ocorre principalmente nos países europeus em que o relacionamento entre pais e filhos é menos caloroso e emotivo, e que na esmagadora maioria dos casos os “pais técnicos” já eram técnicos ou professores, antes de ter filhos.

Sendo assim, podemos sugerir aos pais de atletas de tênis, algumas dicas importantes, lembre se que antes de relação pai e atleta, a uma relação pai e filho, preze pelo bem-estar tanto sua quanto do seu filho, e não se esqueça que o aprendizado do tênis é um processo gradativo e que postergar fases de desenvolvimento do atleta pode gerar atrasos no futuro. Por fim escolha alguém capacitado a desenvolver quais sejam as funções direcionadas ao ensino e desenvolvimento do atleta.